top of page

A industrialização brasileira do pós-guerra: ascensão, contradições e crise

  • há 20 horas
  • 5 min de leitura

*O presente texto foi fruto de minha participação, como entrevistado, do EBCast, promovido pelos alunos de Economia da Unifor. Para acessa o episódio, clique aqui.

industrialização

Entre 1945 e o final dos anos 1970, o Brasil viveu uma das transformações econômicas mais intensas de sua história. Em pouco mais de três décadas, o país deixou de ser uma economia predominantemente agrária e exportadora de produtos primários para se tornar uma das maiores bases industriais do mundo em desenvolvimento. Essa mudança resultou de decisões políticas deliberadas, de forte atuação estatal e de uma articulação complexa entre capital nacional, capital estrangeiro e planejamento governamental. No entanto, o mesmo modelo que viabilizou o salto industrial carregava fragilidades que, ao se combinarem com choques externos, conduziram o país à estagnação e à inflação crônica dos anos 1980.



1. O projeto industrializante e suas consequências econômicas e sociais


O ponto de partida foi a política de substituição de importações. No imediato pós-guerra, restrições cambiais e a necessidade de produzir internamente bens antes importados levaram à expansão de setores como têxtil, alimentos, insumos básicos e bens de consumo leve. O Estado ampliou mecanismos de proteção tarifária, controle cambial e investimento em infraestrutura, criando condições para que a indústria nacional pudesse amadurecer sob abrigo da concorrência externa (TAVARES, 1972, LESSA, 1964).


O salto qualitativo veio com o Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek, entre 1956 e 1961. Nesse período, a industrialização avançou para os bens duráveis, a indústria de base, a energia e os transportes. A entrada de multinacionais, sobretudo no setor automobilístico, articulou-se com investimento público pesado em rodovias, eletricidade e crédito estatal de longo prazo. Foi o auge do desenvolvimentismo clássico, no qual o Estado não apenas incentivava, mas planejava, financiava e coordenava a expansão industrial (LESSA, 1964, SUZIGAN, 1986).


Instituições como o BNDE (atual BNDES), criado em 1952, e empresas estatais como Petrobras, Eletrobras, CSN e Vale foram peças centrais desse arranjo. Sem elas, a industrialização pesada teria sido muito mais lenta e fragmentada. Como o mercado privado de capitais era incipiente, coube ao Estado assumir a função de prover crédito de longo prazo para infraestrutura e indústria de base, algo típico de processos de industrialização tardia (SUZIGAN, 1986, ABREU, 2014).


Após o golpe de 1964, o regime militar reorganizou a política econômica por meio do PAEG, que combateu a inflação, reformou o sistema financeiro e tributário e criou bases institucionais para um novo ciclo de crescimento. Entre 1968 e 1973, no chamado "milagre econômico", o Brasil cresceu a taxas elevadas, com forte expansão industrial, aumento da produtividade e do investimento. Entretanto, esse crescimento se deu com compressão salarial e concentração de renda, aprofundando o padrão excludente de modernização (FISHLOW, 1972, OLIVEIRA, 1972).


No plano social, a industrialização acelerou a urbanização e consolidou a centralidade do Centro-Sul, especialmente São Paulo, como núcleo da acumulação industrial. Houve expansão do trabalho assalariado urbano, crescimento das camadas médias técnicas e burocráticas, do operariado fabril e do setor de serviços. O Brasil se tornou mais urbano e mais escolarizado, mas a transformação não foi socialmente homogênea. Persistiram forte concentração de renda, informalidade, precariedade urbana e exclusão de amplos contingentes do padrão moderno de consumo (OLIVEIRA, 1972, CANO, 1977). A literatura destaca, portanto, uma modernização conservadora, na qual o país mudou profundamente sem democratizar proporcionalmente os ganhos do crescimento.


Entre 1974 e 1979, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND) representou a última grande aposta do Estado desenvolvimentista. Diante do primeiro choque do petróleo, o governo optou por aprofundar a industrialização pesada nos setores de química, petroquímica, siderurgia, bens de capital e energia. O Estado assumiu papel ainda mais decisivo na coordenação do investimento, mas o avanço foi financiado com endividamento externo crescente (CASTRO e SOUZA, 1985).


2. O esgotamento do modelo e a década perdida


A crise que se instalou no início dos anos 1980 resultou do encontro entre limites internos do modelo e choques externos severos. Internamente, a indústria brasileira havia avançado bastante, mas ainda dependia de importações de tecnologia, insumos sofisticados e financiamento externo. O crescimento era sustentado por forte coordenação estatal, subsídios, endividamento e, em vários momentos, compressão salarial. Isso gerava tensões fiscais, inflacionárias e externas que se acumulavam ao longo do tempo (BRESSER-PEREIRA, 1988, BAER, 2001).


Externamente, os choques do petróleo de 1973 e 1979 elevaram custos e pressionaram o balanço de pagamentos. O Brasil respondeu ampliando o endividamento externo para manter o ritmo de crescimento e financiar o II PND. Enquanto os juros internacionais permaneciam baixos, essa estratégia parecia viável. Porém, a elevação abrupta das taxas de juros nos Estados Unidos a partir de 1979 e a retração do crédito internacional mudaram completamente o cenário. Em 1982, com a eclosão da crise da dívida latino-americana, o financiamento externo praticamente secou (ABREU, 2014, BAER, 2001).


Os efeitos foram devastadores. O país precisou gerar superávits comerciais para pagar juros e amortizações, o que exigiu ajuste recessivo e queda do investimento. A indexação generalizada da economia, combinada com conflito distributivo, desvalorizações cambiais e déficits, produziu inflação alta e persistente. O PIB cresceu pouco, a renda per capita praticamente estagnou, o investimento industrial caiu e os salários reais perderam poder de compra. Por essas razões, os anos 1980 ficaram conhecidos como "década perdida" (BRESSER-PEREIRA, 1988, TAVARES, 1972).


A literatura é cuidadosa ao interpretar esse período. Não se trata simplesmente do "fracasso da industrialização". O que entrou em colapso foi a forma histórica específica pela qual ela foi financiada e inserida na economia mundial.


O Brasil havia construído uma base industrial robusta e diversificada, mas não superara plenamente sua vulnerabilidade externa nem sua estrutura social desigual. Quando o contexto internacional mudou, essas fragilidades se tornaram explosivas (CARDOSO DE MELLO, 1982, SERRA, 1982).


Como sintetizam Tavares e Serra (1970), a economia industrial brasileira demonstrou capacidade de expansão mesmo em condições adversas, mas carregava contradições que comprometeram a sustentabilidade do modelo. O auge ocorreu quando Estado, capital privado e financiamento externo se articularam de forma expansiva. A crise surgiu quando essa articulação se tornou financeiramente insustentável, desembocando na estagnação e na inflação crônica que marcaram o encerramento de um ciclo;


 

REFERÊNCIAS

ABREU, M. de P. (Org.). A ordem do progresso: dois séculos de política econômica no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2014.

BAER, W. A economia brasileira. 2. ed. São Paulo: Nobel, 2001.

BRESSER-PEREIRA, L. C. Lucro, acumulação e crise: a tendência declinante da taxa de lucro e o colapso do capitalismo nos anos 80. São Paulo: Brasiliense, 1988.

CANO, W. Raízes da concentração industrial em São Paulo. São Paulo: Difel, 1977.

CARDOSO DE MELLO, J. M. O capitalismo tardio. São Paulo: Brasiliense, 1982.

CASTRO, A. B. de; SOUZA, F. E. P. de. A economia brasileira em marcha forçada. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

FISHLOW, A. Brazilian Size Distribution of Income. American Economic Review, v. 62, n. 2, p. 391-402, 1972.

FURTADO, C. Formação Econômica do Brasil. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1959.

LESSA, C. Quinze anos de política econômica. São Paulo: Brasiliense, 1964.

OLIVEIRA, F. de. Crítica à razão dualista: o ornitorrinco. São Paulo: Boitempo, 1972.

SERRA, J. Ciclos e mudanças estruturais na economia brasileira do pós-guerra. Campinas: IE/Unicamp, 1982.

SUZIGAN, W. Indústria brasileira: origem e desenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1986.

TAVARES, M. da C. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro: ensaios sobre economia brasileira. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

TAVARES, M. da C.; SERRA, J. Além da estagnação. In: TAVARES, M. da C. Da substituição de importações ao capitalismo financeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.


Comentários


Contato

Obrigado(a)

© 2023 by Prof. Thiago Holanda

bottom of page