top of page

Sair do lugar ainda é um sonho distante: o Brasil de 2000 a 2025

há 28 minutos
8 min de leitura

Quem olha a curva do PIB brasileiro neste quarto de século, reproduzida na Figura 1, tem a impressão de uma história de sucesso. O Produto Interno Bruto saltou de R$ 1,2 trilhão em 2000 para R$ 12,7 trilhões em 2025. A linha sobe quase sem interrupção, atravessa crises sem tropeçar e termina no ponto mais alto da série. É uma imagem tranquilizadora. E é, em boa medida, uma ilusão.


Gráfico de linha do PIB do Brasil em valores correntes de 2000 a 2025, que sobe de R$ 1,2 trilhão para R$ 12,7 trilhões
Figura 1. PIB do Brasil em valores correntes, 2000 a 2025 (R$ trilhões). Fonte: IBGE, Contas Nacionais. Valores de 2024 e 2025 preliminares.

Ilusão monetária, para usar o termo técnico. Aqueles valores estão em reais correntes, ou seja, carregam toda a inflação acumulada no período. Quando retiramos o efeito dos preços, o que os economistas fazem com o deflator implícito do PIB, o quadro muda completamente. O PIB nominal multiplicou-se por mais de dez. O volume de bens e serviços efetivamente produzido cresceu algo em torno de 75%. A diferença, um fator de aproximadamente seis, é variação de preços. Repare que a recessão de 2015 e 2016, uma das mais profundas da nossa história, quase não aparece na curva nominal. Ela só se revela no gráfico de crescimento real, nas barras vermelhas do meio da década (Figura 2).


Feita essa correção, a pergunta relevante deixa de ser quanto o PIB cresceu e passa a ser por que ele cresceu tão pouco, de forma tão irregular, e o que isso fez com a renda de cada brasileiro. O crescimento real médio entre 2000 e 2025 foi de cerca de 2,2% ao ano. Descontado o aumento da população, a renda per capita avançou cerca de 1,4% ao ano. Nesse ritmo, um país leva meio século para dobrar o padrão de vida. Mas a média esconde três Brasis diferentes, bem visíveis na Figura 2, e é a sucessão deles que explica onde chegamos.


Gráfico de barras da taxa de crescimento real do PIB brasileiro de 2000 a 2025, com retrações em 2009, 2015, 2016 e 2020
Figura 2. Taxa de crescimento real do PIB, 2000 a 2025 (% ao ano). Fonte: Banco Mundial. Nota: o IBGE revisou a queda de 2020 para 3,3%, valor adotado no texto.

Vento a favor e casa arrumada (2000 a 2010)


O começo da série herda uma arquitetura construída no fim dos anos 1990: o tripé macroeconômico, formado por metas de inflação, câmbio flutuante e metas de superávit primário, e a Lei de Responsabilidade Fiscal, de 2000. A crise de confiança de 2002, com o dólar disparando às vésperas da eleição, levou o PIB per capita em dólares ao piso da série, cerca de US$ 2,9 mil. O que veio depois dependeu de uma escolha decisiva. O novo governo manteve e até reforçou o compromisso fiscal, com superávits primários na casa de 3% do PIB.


A credibilidade reduziu o prêmio de risco, os juros caíram gradualmente e o crédito se expandiu, apoiado em reformas microeconômicas pouco lembradas, mas poderosas, como o crédito consignado, a alienação fiduciária de imóveis e a nova Lei de Falências. Ao mesmo tempo, o Brasil recebeu um presente: o superciclo de commodities puxado pela China, que melhorou fortemente nossos termos de troca. Entre 2003 e 2010, o PIB cresceu em média 4% ao ano e a renda per capita, cerca de 3%. Em 2008, o país conquistou o grau de investimento.


A Figura 2 registra um detalhe. Em 2009, em plena crise financeira global, o PIB brasileiro recuou apenas 0,1% e, em 2010, cresceu 7,5%. Isso foi possível porque havia espaço fiscal e monetário para reagir. A lição merece ser guardada: o espaço fiscal funciona como um seguro. Ele só está disponível na crise se foi acumulado na bonança.


A guinada e a conta que chegou (2011 a 2016)


O PIB per capita em dólares atingiu o pico em 2011, perto de US$ 13,4 mil. Parte desse salto, vale dizer, não era produtividade, mas câmbio valorizado pela bonança das commodities. Era uma riqueza em boa medida emprestada pelos preços internacionais. O momento pedia reformas que elevassem a produtividade antes que o vento mudasse. A opção foi outra.


A partir de 2011 ganhou forma o que a própria equipe econômica chamou de nova matriz macroeconômica: redução forçada dos juros (a Selic chegou a 7,25% em 2012, com a inflação acima do centro da meta), desonerações tributárias setoriais, centenas de bilhões de reais em empréstimos do Tesouro ao BNDES a juros subsidiados, controle de preços de combustíveis e de energia elétrica e uma dose crescente de contabilidade criativa nas contas públicas. A aposta era de que o Estado, escolhendo setores e barateando o capital por decisão administrativa, destravaria o investimento. O investimento não veio na escala prometida. O crescimento médio caiu para 1,8% ao ano entre 2012 e 2014, ainda antes da recessão, e em 2014 foi de apenas 0,5%.


O custo apareceu nas contas. Em 2014, pela primeira vez desde a adoção do tripé, o setor público registrou déficit primário. A dívida bruta do governo geral, que no fim de 2013 havia chegado a 51,5% do PIB, o menor patamar da série, passou de 69% em 2016. O grau de investimento foi perdido entre 2015 e 2016. A inflação de 2015 superou 10%, os preços represados tiveram de ser corrigidos de uma só vez e o Banco Central levou a Selic a 14,25% para recuperar a credibilidade perdida. O resultado foi uma recessão acumulada de cerca de 6,7% em dois anos. A renda per capita real caiu mais de 8% entre 2014 e 2016, e o desemprego mais que dobrou, chegando a quase 14% no início de 2017.


Seria desonesto atribuir tudo a uma única causa. A queda dos preços das commodities a partir de 2014, a crise política e os efeitos da Operação Lava Jato sobre a construção pesada também pesaram. Mas é justamente aqui que a política fiscal faz diferença. Um país com contas equilibradas teria enfrentado esses choques com juros menores e sem precisar de um ajuste no meio da tempestade. Sem colchão, o ajuste veio de forma pró-cíclica, isto é, apertando quando a economia já caía. A fatura dos desequilíbrios acumulados chegou na pior hora possível.


Reconstrução, pandemia e o peso dos juros (2017 a 2025)


A partir de 2016, o país iniciou uma agenda de reconstrução institucional: o teto de gastos, a Lei das Estatais, a substituição da TJLP pela TLP nos financiamentos do BNDES (o que reduziu o subsídio implícito ao crédito direcionado), a reforma trabalhista em 2017, a reforma da Previdência e a Lei de Liberdade Econômica em 2019, o marco legal do saneamento em 2020 e a autonomia formal do Banco Central em 2021. São mudanças cujos efeitos se medem em décadas, não em trimestres. Por isso o crescimento de 2017 a 2019, em torno de 1,4% ao ano, foi decepcionante. O buraco era fundo e a dívida, alta.


A pandemia derrubou o PIB em 3,3% em 2020, segundo o dado revisado do IBGE. O gasto emergencial era necessário e foi feito, mas levou a dívida bruta a quase 88% do PIB em seu pico. Aqui cabe uma observação didática. Entre 2021 e 2022, a relação entre dívida e PIB caiu bastante, e parte dessa melhora veio da própria inflação, que faz o PIB nominal, o denominador da conta, crescer mais rápido do que a dívida. Compare as Figuras 1 e 2: o PIB em reais saltou 18% de 2020 para 2021, mas o crescimento real foi de 4,8%. O restante foi preço. Melhorar indicador fiscal com inflação é como emagrecer numa balança desregulada.


Entre 2021 e 2025, o crescimento médio ficou pouco acima de 3% ao ano, acima da década anterior. Contribuíram o agronegócio, o petróleo do pré-sal, um mercado de trabalho mais flexível, que levou o desemprego às mínimas da série histórica, e também um impulso fiscal relevante. É uma recuperação real, mas apoiada em bases frágeis. Em 2025, o setor público pagou cerca de R$ 1 trilhão em juros nominais, o equivalente a 7,9% do PIB. O déficit primário foi de apenas 0,4% do PIB, mas o déficit nominal, que inclui os juros, chegou a 8,3%. A dívida bruta fechou o ano em 78,7% do PIB e a Selic chegou a 15%, o maior patamar em quase duas décadas.


Aqui é o ponto central para entender o presente: juros altos não são um "capricho" do Banco Central. Eles refletem, em boa parte, o prêmio que os investidores exigem para financiar um Estado cuja trajetória de dívida inspira dúvida. Quando a política fiscal estimula a demanda e a política monetária precisa contê-la, o país passa a dirigir com um pé no acelerador e outro no freio. O preço é pago em investimento privado que deixa de acontecer. A renda per capita real só superou o nível de 2013 em 2024 e, em 2025, estava cerca de 4% acima dele. Foram doze anos para avançar 4%, algo como 0,3% ao ano. Em dólares, o PIB per capita de 2025, de US$ 10,7 mil, ainda é cerca de 20% inferior ao de 2011. Não por acaso, muitos economistas já falam em uma segunda década perdida, depois da dos anos 1980.


O mapa regional


Os dados regionais acrescentam uma camada importante. Entre 2002 e 2023, o Sudeste perdeu participação no PIB nacional, de 57,4% para 53,0%, como mostra a Figura 3. Quem ganhou espaço foram principalmente o Centro-Oeste, de 8,6% para 10,6%, e o Norte, de 4,7% para 5,8%. O caso mais impressionante é o de Mato Grosso, cujo PIB nominal se multiplicou por 14 no período, contra 7,4 do Brasil, praticamente dobrando sua fatia na economia nacional. Por trás disso está uma combinação de tecnologia agrícola, com a Embrapa cumprindo o papel clássico do Estado de prover pesquisa como bem público, ganhos contínuos de produtividade, investimento privado e integração aos mercados globais.


Gráfico de barras empilhadas com a participação das regiões Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste no PIB nacional de 2002 a 2023
Figura 3. Participação das grandes regiões no PIB nacional, 2002 a 2023 (%). Fonte: IBGE, Contas Regionais.

O Nordeste conta uma história diferente. Sua participação subiu de 13,1% em 2002 para 14,5% em 2017 e depois recuou para 13,8% em 2023. A renda per capita nordestina passou de cerca de 47% para cerca de 51% da média nacional entre 2002 e 2022. Houve convergência, mas lenta e interrompida. O Ceará repete o padrão: sua fatia no PIB brasileiro foi de 1,9% em 2002 para 2,25% em 2017 e voltou a 2,1% em 2023.


A interrupção coincide com o esgotamento do espaço fiscal, e isso não é acaso. Boa parte da convergência nordestina dos anos 2000 foi sustentada por transferências de renda, valorização do salário mínimo, expansão do crédito e investimento público. São instrumentos legítimos, mas dependem do caixa do Estado. Quando o caixa minguou, a convergência parou. Já o avanço do Centro-Oeste, ancorado em produtividade, resistiu às crises. No ritmo observado entre 2002 e 2022, o Nordeste levaria cerca de um século para alcançar três quartos da renda média nacional.


O que os números ensinam?


Vinte e cinco anos de dados deixam três lições. A primeira é que crescimento sustentado vem de produtividade, não de estímulos. O consumo puxado por crédito subsidiado ou por gasto público produz picos, como o de 2010, mas não muda o patamar de renda. A segunda é que responsabilidade fiscal não é um fim em si mesma, nem um fetiche contábil. É a condição para juros baixos, investimento privado e políticas sociais que sobrevivam ao ciclo político. Os melhores anos da série coincidiram com contas arrumadas, e os piores, com a perda de controle sobre elas. A terceira é que o espaço fiscal é um seguro. Ele permitiu atravessar 2009 com folga e faltou em 2015.


Para o Nordeste e para o Ceará, a mensagem é ainda mais direta. O caminho para fechar a distância em relação ao restante do país passa por capital humano, sofisticação produtiva, segurança jurídica e um ambiente que atraia investimento privado, e não pela espera de um novo ciclo de transferências federais que o orçamento já não comporta.


A curva do PIB nominal continuará subindo, porque a inflação se encarrega disso. A pergunta que deveria nos ocupar é outra: por quanto tempo vamos aceitar um país que produz dez vezes mais reais, mas entrega a seus cidadãos uma renda que mal sai do lugar?


Fontes


  • PIB, PIB per capita e PIB das UFs: IBGE, Sistema de Contas Nacionais (SIDRA 6784) e Contas Regionais (SIDRA 5938). Valores em dólares: Banco Mundial (World Development Indicators). Taxas de crescimento real de 2020 em diante conforme as revisões do IBGE.

  • Resultado primário, juros e déficit nominal de 2025: Banco Central, via Poder360.

  • Dívida bruta do governo geral em 2013, 2016 e no pico de 2020: Banco Central, via Folha Vitória. Dívida bruta de 2025: Diário do Comércio.

  • Revisão do PIB de 2020 para queda de 3,3%: Jornal Opção.


As Figuras 1 e 3 foram elaboradas com dados do IBGE e a Figura 2, com dados do Banco Mundial.

Comentários


Contato

Obrigado(a)

​

© 2023 by Prof. Thiago Holanda

bottom of page